MULTIZONA

Olhem sempre a MULTIZONA, minha revista virtual, ao lado direito do blog. Boa leitura


quinta-feira, 13 de maio de 2010

OUTRA NATUREZA

 Beleza exigente | LIANA TIMM | arte digital | 2007

inconsistente presença
penso-me tocada pela aragem da janela
movediça tenho a mente sedenta
ressonante

num restrito espaço
nem grito
inerte pressinto
a lingua morta

LIANA TIMM 
Poema do Livro ÁGUA PASSANTE de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 2009. Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

quarta-feira, 12 de maio de 2010

VAZIO

 Olhar estrangeiro: New York | LIANA TIMM | arte digital | 2007

escrevo habituada na melancolia
as primeiras faltas
atropelam o inconcebível

na cama
alerta percorro
no barulho dos carros
o inventário da vida

LIANA TIMM 2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

CONSTELAÇÃO

 O mundo cabe aqui | LIANA TIMM | arte digital | 2004

soltar o pensamento
no lago visto da janela
astronomia atrevida
investiga até os fundos
do abandono

no meu encalço
estrelas e guias


LIANA TIMM 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

CONQUISTA

 Crônica de um rio | LIANA TIMM | desenho | 1987

há noites e extermínios
no meio da madrugada
qualquer pingo d’água
me põe exausta

nas noites dos meus dias
já fui tudo
amada em meio aos lençóis da cama
acariciada dentro e fora
mexida por pouco
esvaziada

no meu agora
distraio negligente
a interrogação da hora
andando sobre águas rasas
deito na lama do rio
moldando novas formas
simplificada

LIANA TIMM 2010

domingo, 9 de maio de 2010

VIAGEM

O mundo cabe aqui | LIANA TIMM | arte digital | 2004


passeia por mim
faz um amor bem feito
que o efeito fica

o vinho
pela boca entra
teu amor
entra por mim
de boca em boca


LIANA TIMM 2010

sábado, 8 de maio de 2010

VOADOURO

Angulações do olhar | LIANA TIMM | impressão à laser + assemblage | 1994



alcança a rede do ânimo!
um som deve pousar
na penumbra cósmica do corpo
um dom vai suportar
no ruído abafado
o desejo

voar por sobre a noite
ver aérea toda tessitura
boiar por entre
ramos e pernas
sentir no dentro
o peso elétrico da hora

passar nos vãos
como fumaça delineio
superfície
tela sem meio

flanar fora
gozar vertigens
levitação
carruagem

LIANA TIMM 2010


sexta-feira, 7 de maio de 2010

REFLEXO

 Amenas inferências | LIANA TIMM | serigrafia | 1984

escrevo no afã
de reter o desamparo
solitária busca
sedução

o rio em que escrevo
me espelha como um retrato
no liso plano do papel

sou atrasada
não interpreto mancha borra fluído
todo sentido corre
oprimido nas veias

LIANA TIMM 
Poema do Livro ÁGUA PASSANTE de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 2009. Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

quinta-feira, 6 de maio de 2010

DESCOBERTA

 Reflexos | LIANA TIMM | arte digital | 1999

cansei
do encadeamento de palavras
da lógica do dizer
perfeita solução linguística

quero inventar
um outro jeito mais aflito
de pintar a dor fria da cor

LIANA TIMM 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O SOTÃO INESQUECÍVEL

As quatro intenções | LIANA TIMM | arte digital | 1999

Labirintos percorro
sem a chance
de reconhecer caminhos
Sei incompatível
a vocação reflexiva
com o afã de ser em vida
Sei insaciável
a inquietação represada
e os excessos

Prisioneira de micróbios
busco adormecer
a ânsia de sete-vidas
Debate-se em patética questão
o que no postal parecia mera referência
Debato-me neste pacato estar não sei onde
aliciada por mim mesma
a permanecer na anarquia

LIANA TIMM
Poesia do Livro AMENAS INFERÊNCIAS de LIANA TIMM, TDA Editora, Porto Alegre, 1986. 
Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

segunda-feira, 3 de maio de 2010

UM E OUTRO

  Eternas paixões | LIANA TIMM | arte digital | 2000
Inteiros
pra desprecisar do outro
pela insuficiência
Capazes
a qualquer hora
de uma loucura
Juntos
Livres
que o amor não é circo

LIANA TIMM
Poesia do Livro AMENAS INFERÊNCIAS de LIANA TIMM, TDA Editora, Porto Alegre, 1986. 
Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

sábado, 1 de maio de 2010

MISTÉRIO

Desvios | LIANA TIMM | arte digital | 1999
a fumaça
edito
dela surge o estranho
ossatura hostil
sombreando o dizer não dito

perto e distante
o escuro esclarece
à contraluz

um biombo entre facas
entrevê a faca
como se a de fora fosse

muda deixo reverberar
o corpo antes e dentro


LIANA TIMM 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

MEMÓRIA COLATERAL

LIANA TIMM | desenho |1988

Me prometo o desgaste físico
o desgaste dos desígnios
– Não suporto este nervo exposto

Sem condições
me ofereço
ao esforço ontológico
– Quero sonhar com perdidos

Argumento a execução do trajeto
não necessariamente linear
não necessariamente objetal
Um trajeto não acostumado
não regenerado e tudo junto

Proponho a fadiga no exercício verídico
a catarse da grafia
inclusão
diversas grafias

Proponho a experiência
quimicamente examinada
exaustivamente desmascarada
– Ensaios de destruição

Cogito o triturar de oferendas
o tangenciar nas fendas
de impossibilidades

Que meu corpo nunca perca
seu poder atento
de atingir o inominado
mesmo que do inominado surjam
lembranças que
esquecemos de esquecer
mesmo que do inominado ressurja
esse amor inventado
extraviado e sem país

LIANA TIMM
do Livro TRILOGIA DO INDIZÍVEL de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 1997.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

STILL LIFE

(Re)velações do Olhar | Todos feiticeiros II | LIANA TIMM | arte digital | 2006

maçãs no prato exalam simploriedade
antecedentes se mostram logo de saída
a languidez do verde se aproveita
na pintura das paredes

janelas abertas
recebem o aroma frutal das peras

no ar
o rosado maduro de texturas
busca na prata dos pratos
o foco do ambiente

mãos ausentes
avós tias
jogam tessituras

uma moldura dourada
vigia a toalha sobre a mesa
e o arranjo envernizado das frutas

tudo vem de um lugar
posto na sala de jantar
como um troféu

– este quadro ?
ganhei de presente

LIANA TIMM 
Poema do Livro ÁGUA PASSANTE de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 2009. Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

terça-feira, 27 de abril de 2010

FUMAÇA

Papéis que valem ouro | LIANA TIMM | técnica mista | 1988

nas sombras
nenhum aviso de contramão
nenhuma premonição
nem barulhos

guilhotinas
regam em sangue morno
as gardênias

de quando em quando
dedos ausentes
complicam o tato
o autorretrato
e o que se espera
à sombra de uma mão

LIANA TIMM 
Poema do Livro ÁGUA PASSANTE de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 2009. Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

segunda-feira, 26 de abril de 2010

NATUREZA

Beleza exigente II | LIANA TIMM | arte digital | 2007

O meu navio ao zarpar do porto
se transforma noutra embarcação
Enquanto eu vou
há quem conduza barcos

necessários

Não podem todos
desprezar faróis
fingir que a flama
é mais uma estrela
e armar constelações

Estar nos ares como as gaivotas
requer da natureza permissão
Os homens
dizem
são da terra

por alguma razão

LIANA TIMM
do Livro FARÓIS DA SOLIDÃO, Porto Alegre, 1988.

sábado, 24 de abril de 2010

INSOLITUDE

 LIANA TMM | arte digital | 2004
Difícil
pensar como ninguém
Co-habitar na novidade
não da coisa
da disposição do possível
passível de ser outro
e outro e sempre
Conquistados
tragamos no vício do saber
histórias recontadas
De início basta
após
o mesmo gás aponta
à multidão de coisas
e quer o trânsito
a veracidade
meras novidades
As mãos a boca
as intenções
exigem explorar o sangue
não o roteiro
– difícil de nomear amoroso
Querem a audácia
dos frutos irreversivelmente maduros
empenhados
numa busca de estrondos
sem condescendências
Tudo que for menos
realmente não basta
não sacia
não traz diferença
Nesta época da vida
ocupações sem proveito
empobrecem ainda mais
os dias que clamam
por esta diferença
Me confronto
com premências

descabidas?

LIANA TIMM
do Livro TRILOGIA DO INDIZÍVEL de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 1997. Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

sexta-feira, 23 de abril de 2010

SCRIPT FORA DA PÁGINA

Sequência | LIANA TIMM | arte digital | 2002
deixa a tua mão errante
queimar o meu desejo
onde ele arde e espera
- isto é apenas o prefácio

pousa teus lábios na minha boca
de entrelinhas
e aguarda
- nada ferve de repente
tudo começa
na temperatura ambiente

sente o dilatar silencioso da torrente
na escritura da epopéia
- meu corpo verso a verso
entra nas transversais da tua língua

explora
por entre as letras
a frutal artimanha da trama
e te arroja
nos potes da sede

LIANA TIMM 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

MESCLAS BRASILEIRAS

Papéis que valem ouro | LIANA TIMM | nanquim, lápis de cor e colagem | 1988

É na barreira e no tabu a cauda "mortis" dos encontros. Encontrar sem busca valoriza o acaso. Na flor da pele a fruição estética, crítica, documental, opinativa desse nacionalismo populista decadente.
Ao separar pedras e grãos somos mais aptos dia após dia. Quebrado o preconceito mil valores pululam dos esconderijos. Agora à luz de uma capacidade táctil, sonora, plástica e interpretável.
Ufanistas distorcem símbolos. E avulsos calam pois país colonizado é corda bamba entre província e moda.
Dentro da história o que nos torna dignos indígnos. Mas o peso da indignidade deve poupar quem acorrentado viu o poder e não sucumbiu à armadilha.
Uns vasculham os primórdios, o inadmissível. Lúcidos de que a história é a história, outra, é a ação dos homens na história. Essa sim criticável, posicionável. Opinável.
Da história, uma visão golpeada em várias fases e repensada, sem moldes, interesses. Livre e capaz para olhar, ousar, criar.
Ampliar. Derrubar a vergonha dos atos em nome da bandeira que uns se ocuparam afastando os outros de seu desenho. Ultrapassada a preguiça, o "patriotismo ornamental", iremos conferir o dado. Raciocinar. Verificar.
Raizificar. Re-voltar ao pau-brasil. Revisitá-lo sem o sentimentalismo retórico. Reassimilar a importação. Re-pintá-la em consideração a Oswald. Em consideração a nós.
Ser brasileiro. Sei-o. Seio farto doce mata virgem nunca deflorada por inteiro. Essa é a razão. Nunca a coisa por inteiro.
Criar outra versão definitiva. E provisória.

Virtudes?
Habitam sim junto aos homens livres e escravos da miséria, ignorância, degradação. Habitam com senhores de escravos do primeiro Pedro, seguindo aí por meados que o ventre livre até hoje não cumpriu. E segue mais de um Pedro, votado em pequenos grupos como hoje se faz por conchavos.
Imperam aqui a "grande natureza" e sentimentos. O que excita e excede o roteiro é a selvageria, a   saturação do discurso. O exacerbado enaltecimento das espécies. As típicas soluções de enxertos que misturam os reinos.
Missões nunca são cumpridas. Há ironia, desconfiança. Muito que bem usar de quando em vez o molho. Essa mediação faz respirar os engajados e já salvou apaixonados na tensão do ato. Mas muitos são viciados. Curvam-se homens sobre os ingredientes e os diluem. Não de todo. Há farelos. Homenagens e castigos.
O Lança chamas pega quem de perto evita. A imunidade não se perpetua mais.
Íntimos pontos de vistas não permitem a devoção acrítica, a libertação pelas vias indiretas.
Íntimos! Não permitam que se morra sem desfrutar amores. Não permitam as dedicações exóticas, aceitáveis aos oito anos mas que agora, francamente, não devem voltam mais.

LIANA TIMM
Poesia do Livro MISTURAS PRINCIPAIS de LIANA TIMM, TIMM&TIMM Editora, Porto Alegre, 1992. 
Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

terça-feira, 20 de abril de 2010

QUE PORTA BATE

 LIANA TIMM | arte digital | 2008
o ar que respiro
é daqui
sai do chão
das paredes movediças
tombadas pelo tempo
à margem das ausências
nenhuma porta bate

LIANA TIMM 
Poema do Livro ÁGUA PASSANTE de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 2009. Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA

domingo, 18 de abril de 2010

A COR DO SOM

 
Paisagens do Interior • Piano • | LIANA TIMM | arte digital | 2009

as notas deste piano
evito
som inadequado
mito
dentes prontos
dentada ou sorriso
sustenidos

eclode vibra
mina pode
implode a resistência
pouco sobra de um mim
rosa choque
azul bebê
verde musgo
carmim

LIANA TIMM 
Poema do Livro ÁGUA PASSANTE de LIANA TIMM, TERRITÓRIO DAS ARTES Editora, Porto Alegre, 2009. Onde encontrar: LIVRARIA CULTURA, BAMBOLETRAS, PALAVRARIA